Doce Rebeldia, crónica por Rita Damásio

Faço reciclagem e desligo a água enquanto lavo os dentes. Pago as contas da luz e do gás sem atraso. Como os iogurtes até ao fim, até rapo a embalagem. Não digo “não” quando posso dizer “sim”.

Respeito a velocidade máxima permitida. Nunca chego atrasada. Só compro um telemóvel novo quando o anterior se estraga. Engulo em seco quando oiço um piropo na rua. Não cedo a impulsos shopaholics.

Sinto-me um animal preso! E animal que em gaiola se encontra, depressa dele próprio se desencontra. Acabo por trair-me de tão leal ao mundo. Por vezes as certezas encurralam-me. Roubam-me o ar e sufocam-me.

Hoje quero, só e somente, errar. Quero histórias para contar.

Hoje não me vou justificar ou explicar. Não vou fazer a cama e vou chegar atrasada ao trabalho. Vou comer uma caixa inteira de pastéis de nata e deixar um iogurte pela metade. Vou pintar o cabelo de cor de rosa e ignorar as chamadas no telemóvel. Não vou rever este texto.

Vou roubar três charutos ao meu avô. Fazer barulho ao chegar a casa às sete da manhã. Rir enquanto me olham com desaprovação. Enganar-me de propósito no nome de alguém.

Quem não comete erros vive assustado, constrói barreiras. Usufruir da vida implica não criar limites pois esses têm que depender apenas da nossa vontade. Somos seres morais; temos consciência. Se é a Consciência que nos afirma como Sujeitos Individuais então não devemos ser menos livres por Ela.

Afugenta todas as obrigações e perde-te por um dia. Entrega-te aos sentidos e prova o doce alívio da rebeldia. Encontra um eu mais livre e volta mais comprometido contigo próprio.

Um mundo de emoções, sensações e interpretações. Todas as Terças-feiras à noite uma nova crónica por Rita Damásio. Encontre-as aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *