“Já não me defines”, crónica por Rita Damásio

Fechei a porta. Rodei a torneira e deixei a água correr. Em modo automático despi-me e entrei no duche. A água começou a cair, sobre a minha cabeça, ombros…

Concentrei-me apenas em ti, exclusivamente em ti. Esqueci tudo, até o que estava em meu redor. Deixei de pensar e permiti-me sentir.

Senti. Senti-te. Deixei que te apoderasses de mim. Parecia vulnerável mas quanto mais tomavas conta de mim mais forte eu me sentia. Era hora de te aceitar!

Por um tempo longo senti-te. Por fora água e lágrimas. Por dentro e pela primeira e última vez estava eu impávida e serena. Aceitei-te. Fazes parte de mim.

Agora a escolha é minha e por seres minha eu escolho não te carregar mais. Quero ter-me de volta, inteira.

Engraçado, precisei de tanto tempo para perceber que o revoltar-me e o negar-te não eram suficientes para que desaparecesses. Era obrigatório conformar-me com a tua existência.

Tinha de reconhecer que me pertencias para prescindir de ti. Pois era impossível desfazer-me do que não aceitava ser meu.

Senti-te percorrer-me me todo o corpo, deixei que me tomásses e em seguida, finalmente, deixei-te desaparecer num vazio infinito.

A água limpou-me de ti. Já não me defines.

A minha “pele” ganhou um novo brilho.

 

 

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