Um mundo de emoções, sensações e interpretações. Todas as Terças-feiras à noite uma nova crónica por Rita Damásio. Encontre-as aqui
A caminhada exige que vistas a tua roupa mais quente. Calças as luvas, as botas e pões um gorro. Começas o percurso mas a humidade e o gelo tornam o chão muito escorregadio! As luvas protegem-te do cieiro, o gorro do ar gélido e as botas que têm tracção não se revelam, porém, suficientes para os obstáculos que encontras. O vento empurra-te noutra direcção. Com toda a força tentas contrariá-lo, mas as rajadas obrigam-te a deslizar sobre a fina camada de gelo e acabas por cair!
Tombas inteiro sobre o chão, sentes o frio. Magoado e assustado deixas-te ficar por alguns segundos deitado. Assim que recuperas, decides erguer-te. Estás de pé, respiras fundo e o ar gélido entra nos teus pulmões, arrepias-te. Com o coração acelerado pelo susto e com as pernas a tremer pelo esforço caminhas de novo.
Pensas que tendo mais cuidado não irás voltar a cair. Minutos depois da primeira queda sentes-te a escorregar. Os joelhos batem com força no chão mas usas as mãos para te amparares e equilibras-te. Fazes força nos braços, posicionas bem as pernas, endireitas a cabeça e levantas-te. Ao longo da caminhada tudo isto se repete; escorregas, cais, voltas a levantar-te. Umas vezes com maior medo, outras com maior confiança.
Com os olhos no chão e concentrado nos teus passos, começas a sonhar com uma estação mais quente. Imaginas um ambiente menos hóstil, mais seguro e leve. Estás esgotado e dorido, desejas chegar ao teu destino sem mais obstáculos ou deslizes. Perdido nestes pensamentos és surpreendido por uns tímidos raios de sol que atravessam o céu nebulado. Surpreendido levantas os olhos e fixas o horizonte. Avistas um pequena cabana, da chaminé sai fumo; talvez uma lareira ou um fogão a lenha. À porta alguém te espera e grita:
– Continua, caminha em frente sem hesitar porque estás quase a chegar. Eu seguro-te. Tenho abrigo para ti.






