O mundo segundo os portugueses

Numa altura em que a experiência de trabalho/formação fora do país é um dos motores para o crescimento profissional e o incremento dos currículos, o Empregos pelo Mundo faz uma série de entrevistas a pessoas que estão ou estiveram a viver uma experiência internacional. Uma inspiração para quem equaciona sair do país e para quem tem dúvidas sobre as vantagens dessa decisão.

Francisco Lacerda, Business Development Manager, EatClub, Sydney, Austrália

– O que o levou a sair do país?

Sempre viajei em lazer ou para competições de vela, e na adolescência vivi fora com os meus pais um par de anos, o que criou em mim alguma vontade de conhecer mais e ter experiências fora de Portugal. O facto de ter andado sempre em escolas, liceus, e faculdades a menos de meia hora de casa também me fez sempre pensar que para aprender e viver mais teria que ir para fora, talvez para uma situação talvez menos confortável. Acho que posso dizer que acabei por sair do país por vontade e não por necessidade.

– Qual deve ser a base da estratégia de quem quer arranjar trabalho lá fora?

Acho que isso depende do que vais à procura e da fase da vida em que estás. Eu vivi em Londres, e agora vivo em Sydney. São dois mercados laborais muito abertos, mas onde o principal critério de avaliação de um CV é a experiência local (em Sydney talvez seja o tipo de visto de trabalho, que na altura não foi um problema para mim). Eu estudei em Londres, o que me deu uma pequena plataforma na primeira fase de procura de emprego lá. E trabalhei em Londres, que é um mercado muito valorizado em Sydney. O melhor concelho que tenho para dar é que se deve perceber bem o mercado para onde se quer ir. Falar com locais, ou pessoas que já tenham trabalhado nesse mercado, pesquisar, falar com recrutadores da área em questão, e chegar mesmo a ir a algumas entrevistas mesmo que como treino se não for uma oportunidade que pretendam perseguir. Depois de perceber o que é preciso para se ter sucesso nesse mercado, há que fazer por preencher os critérios necessários. O resto vem da tenacidade e resiliência que são necessários para se vingar nestes mercados (acredito que não seja muito diferente do mercado nacional).

– Quais foram os maiores desafios que encontrou?

O que mais me tem marcado nestes anos fora é talvez mais uma confirmação do que uma surpresa. Portugal é um país que olha muito para fora, conhecemos as melhores empresas dos outros países, conhecemos as melhores faculdades dos outros países, sabemos os nomes das maiores cidades dos outros países, etc… O português que vai para fora à procura de desafios tem tendência a ser culto acima da média, a procurar, a preparar-se. O inverso não acontece, o mundo é muito grande e lá fora (pelo menos quando eu saí) ninguém sabe qual é a melhor faculdade portuguesa, a maior empresa de retalho ou a maior empresa energética. É um desafio tentar passar uma imagem de que se tem um currículo algo robusto, ainda que a nível nacional, quando a pessoa do outro lado não faz ideia do que estamos a falar. A melhor maneira que encontrei para resolver isso foi sempre utilizar exemplos locais, ou focar a experiência mais no conteúdo do trabalho do que nos sítios.

– A oportunidade que vive lá fora foi importante para a progressão profissional?

Espero que sim. Não foi necessariamente por isso que saí de Portugal, mas acho que é uma consequência positiva dessa experiência. Há muitas empresas em Portugal a olhar para fora, a querer exportar, e que imagino que procurem pessoas com experiência internacional que compreendam e já tenham dado algumas cartas noutros mercados. Mesmo empresas do mercado nacional muitas vezes olham para os seus pares internacionais como exemplos a seguir, e quem melhor para ajudar a implementar práticas internacionais do que trabalhadores com essa experiência?

– Vê a experiência internacional como essencial para o mercado de trabalho actual?

Não diria essencial, mas parece-me cada vez mais comum as pessoas saírem de Portugal por um par de anos que seja para ter alguma forma de experiência internacional. Tal como antigamente nem toda a gente tinha um curso superior, mas passou a ser essencial, depois nem toda a gente tinha um mestrado, mas passou a ser importante, talvez a experiência internacional já seja o próximo critério de diferenciação. O mercado é sempre e cada vez mais competitivo, e os trabalhadores procuram sempre maneira de se diferenciar.

– Sente que é mais valorizado em Portugal por ter experiência no exterior?

Ainda não pus essa teoria à prova, mas espero que sim. Aprende-se muito a viver fora, tanto profissionalmente como pessoalmente. Acho que são esses tipos de experiências que as empresas valorizam.

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