Regras para freelancers I

mercado de trabalho nacional está em mudança e começamos a ter semelhanças com o que se passa no centro da Europa – ter vários trabalhos, em diferentes regimes, ou estar por conta própria e viver disso – o que corresponde à era da globalização. Por cá ainda vivemos um sistema ‘híbrido’, apesar de as novas gerações estarem a transitar para outro regime. A carga de impostos e os direitos do trabalhador neste regime ainda não facilitam a vida a quem quer e precisa de ser freelancer – mas vale a pena pensar nas vantagens e desvantagens e, por vezes, arriscar.  A lei para os trabalhadores independentes mudou já em 2019, e, sem ser ideal, tem condições mais justas, nomeadamente na contribuição obrigatória para a Segurança Social e no acesso a apoios, como os subsídios de desemprego, doença, parentalidade ou assistência à família.

 Não há freelancers por decreto

Um dos mitos dos últimos anos é a moda do empreendedorismo a qualquer custo. Mas tal como nem todos têm perfil para empreendedores, também não há freelancers por decreto. Muita gente o pode ser, a tempo parcial ou total, mas o compromisso com essa ideia tem de ser absoluto. O que deixa muita gente para trás não é a falta de capacidade técnica ou de trabalho, mas a falta de organização e noção das regras obrigatórias para quem trabalha por conta própria. Podem parecer pormenores, mas é mesmo isso que faz toda a diferença, ainda para mais para quem nunca trabalhou desta forma ou tem pouca experiência profissional.

 

  1. Autoconhecimento e atitude: pense na sua personalidade, hábitos, estilo de vida e compromissos familiares, se os tiver. Orienta-se sozinho ou prefere ter sempre o conselho e as regras de alguém? Prefere fazer as coisas pela sua cabeça ou trabalha melhor com regras mais estritas, horários e hierarquia definida? Acha que tem experiência – engenho e arte – suficiente para se lançar como freelancer ou seria melhor ter uns anos de aprendizagem junto de uma organização? O seu tipo de formação e experiência presta-se a trabalho freelance ou as empresas em Portugal (e fora) ainda não contratam colaboradores externos na sua área? Está numa fase em que tem compromissos familiares muito exigentes ou gere o tempo à sua maneira? Cada freelancer deve adequar a decisão a si próprio, sem comparações. Pense bem na decisão, mas quando decidir saiba que, enquanto tentar, o seu compromisso deve ser total.

 

  1. Horário: É uma das coisas que mais falha a quem faz freelance. Por muito que em contexto empresarial tenha conseguido cumprir com facilidade, isso não é garantia que se dê bem com o regime autónomo. Saiba qual é o horário em que é mais produtivo, uma vez que até a ciência nos diz que cada um produz melhor a determinadas horas, e adopte-o – mas de uma forma quase radical. Saiba que vai haver mil e uma distracções, interrupções e tentações. Os seus amigos e família, a sua série preferida, a saída com o amigo que não vê há séculos, o cão, o sono, o bom tempo ou as compras do supermercado. Cabe-lhe a si resistir: ninguém o ajudará. Tente, aliás, ganhar logo de início o hábito de ter uma agenda online ou de papel onde registe o horário que realmente fez. Nos primeiros meses é imprescindível – e não é para ficar paralisado na culpa e nas falhas, mas para analisar e melhorar. Depois de ganhar o ritmo certo, já será mais fácil ser mais flexível. Mas não deve ‘relaxar’ nunca. Saiba também que uma coisa é o horário que adopta como base pessoal – outra é o que comunica aos clientes. Uma das vantagens de um freelancer é precisamente a flexibilidade de horário. Não rejeite trabalhos só porque têm de ser feitos fora dos seus hábitos. Tente arranjar também um equilíbrio e não trabalhar demais, nem aceitar tudo. Respeite a sua saúde e a qualidade do trabalho que consegue, de facto, entregar no prazo.    

 

  1. Prazos: o prazo é matéria inultrapassável para trabalhar a solo. Um freelancer tem de se comprometer com o prazo de uma forma absoluta. Se não entregar o trabalho a tempo, mesmo que este esteja perfeito, deixará o cliente insatisfeito. Aprender a lidar com o tempo é, por isso, fundamental. Aprender a antecipar dificuldades e a avisar com antecedência, é o que pode fazer em caso de ter algum imprevisto. Mas com clientes novos, que não conhecem o seu trabalho, ou com clientes pontuais, isso é sempre complicado. É preferível entregar algo razoável a tempo e oferecer-se para melhorar, se preciso for, do que falhar. A regra é essa. Habitue-se a trabalhar por empreitada, a desligar-se das redes sociais e e-mails por algumas horas (arranje um hábito de se ligar em 3 períodos específicos ao longo do dia) e a ter apenas um contacto móvel activo para não perder oportunidades de trabalho ou contactos urgentes de clientes.

 

  1. Espaço: tenha um espaço próprio em casa ou até dentro do quarto, se tiver de ser, que trate com todo o cuidado. O ideal é ter mesmo o espaço separado, organizado – ou com a sua própria organização…desde que seja útil/fácil para si. Se não está sozinho em casa habitue-se a fazer respeitar o seu espaço e a que não estejam sempre a interrompê-lo. Em casa as tentações vão do frigorífico, passando pela campainha, tarefas domésticas, Tv, animais de estimação ou a crianças, para quem as tem. Há muita gente que mesmo com regras não consegue trabalhar em casa, nomeadamente na cidade, tendo espaços pequenos ou casas partilhadas. Há já muitas alternativas em espaços de trabalho para independentes, os cowork, centros culturais, bibliotecas, cafés e outros espaços públicos onde é possível ter internet gratuita e estar por algumas horas. Há espaços de cowork relativamente acessíveis, alguns com salas para reunir com clientes e outros serviços que lhe podem ser muito úteis. Equacione essa opção, nomeadamente para não confundir a sua vida pessoal com a profissional, o que pode trazer problemas desnecessários à sua vida particular e relações com os outros.  (*continue a ler aqui)

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