A amiga “avó”, crónica por Rita Damásio

Todos os dias da semana, após as aulas, saía do colégio e ia para a loja do meu avô. Passava lá a tarde até à hora que fechava, para não falar dos dias inteiros nasférias .

Em frente havia outra loja, que pertencia a um casal. Tinham uma filha e uma neta. Não sei se a minha melhor amiga era a neta ou a dona da loja (a avó).  Eu era amiga de ambas. Ali estava a alegria das minhas tardes! Durante anos, que foram muitos, passei ali horas e horas.

Parece-me que isso não agradava muito à minha mãe. Provavelmente não percebia o porquê de preferir passar o tempo na loja da frente mesmo quando lá não estava a menina com quem eu brincava. Eu também não sei ao certo o porquê… Talvez porque era mais calmo e entravam menos clientes.

A neta era uma menina inconstante. Por razões que desconheço, às vezes, não queria brincar comigo. Nem me falava. A avó também não sabia explicar o porquê da neta ser assim. Então, quando eu ficava espantada ou triste, a avó tratava-me melhor ainda, como amigas que éramos. E isso bastava-me para ficar feliz.

Não me lembro do que falávamos. Acho que a maior parte do tempo fazíamos apenas companhia uma à outra. Ela costurava e eu ficava sentada ao lado da ventoinha a olhar para o mundo dela.

Cresci e acabei por me afastar da neta. Já não tínhamos idade para brincar! Eu passava menos tempo na loja, mas todas as tardes ao passar em frente da montra acenava para a minha amiga “avó”. A nossa relação era diferente, mas continuava a ser uma constante.

Um dia… ela, ficou doente. Passaram a ser menos as vezes que estava lá para eu lhe acenar.

Passaram muitos dias.

Fui viajar. Uma noite, curiosamente, sonhei com a minha amiga. Abraçámo-nos muito.

De volta a casa, perguntei a minha mãe como a minha amiga “avó” estava. A minha mãe disse-me que ela tinha partido.

Já não estava connosco.

Até hoje não sei se a noite em que nos despedimos foi a noite em que ela partiu. Sei, porém, que quando a hora chegou ela fez questão de me acenar uma última vez. Desta vez com um abraço que seria eterno. 

 

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