“Atrasada mental, não vês que esse lugar é para deficientes?!?”, crónica por Rita Damásio

O estacionamento era difícil, atrás de nós os carros faziam fila mas alguns minutos depois o carro estava estacionado de forma exemplar. Satisfeitas por termos conseguido um lugar e dispostas a sorrir ouvimos uma buzinadela. Voltámos as cabeças em direcção a um homem de meia idade acompanhado pela mulher e filhos. Gritava com a cabeça fora da janela do carro: “Atrasada mental, não vês que esse lugar é para deficientes?!?”

Como habitualmente acontece neste tipo de situações saltaram-nos insultos de volta. Reagimos por impulso como animais irracionais que não somos. Depois do confronto quisemos ter a certeza se havia algum fundamento de veracidade na acusação de que fomos alvo. De facto o estacionamento não era para pessoas com deficiências motoras, já para não referir que mesmo que o fosse o senhor desconhecia se alguma de nós tinha algum tipo de deficiência, “real”.

Fiquei a pensar no porquê daquele senhor ter reagido de forma tão abrupta por um coisa tão pouco relevante na vida de alguém como, estacionar um carro. Uma reacção tão agressiva e cruelmente ofensiva só pode ter partido de alguém revoltado consigo mesmo. Foi um insulto gratuito, consciente ou inconsciente.

Também eu dei comigo a pensar que gostaria de ser mais tolerante. Aquele momento que durou apenas cinco segundos, conseguiu despoletar em mim uma irritação imediata. Foi uma situação que não teve qualquer tipo de efeito na minha vida nem na dele, a não ser um mau estar momentâneo, mas se uma de nós tivesse respondido de outra forma o efeito poderia ter sido outro, no mínimo a longo prazo.

Se em vez de termos gritado uns quantos palavrões de volta tivéssemos perguntado calmamente ao senhor o porquê de estar a dizer aquilo, ou se uma de nós tivesse saído do carro e o abraçasse enquanto lhe perguntava o porquê de ele estar tão angustiado não sei ao certo qual seria a sua reacção, mas com toda a certeza que seria bem melhor do que aquela que se passou.

Algum de nós seria capaz de agir desta forma? Diria que não. E porque não? Porque com a resposta anterior achamos que nos estamos a “defender”, ao atacar.

Dizem os bons costumes que devemos ser educados para com os outros no entanto os exemplos que observamos durante a vida reflectem precisamente o contrário e seguem o ditado popular amor com amor se paga.

Quando alguém se mostra incapaz de receber de bom grado a nossa simpatia, ajuda ou carinho é porque alguma coisa o impede de o fazer. Se realmente é o nosso sentimento que queremos que perpetue então devemos tentar chegar ao cerne da questão e em vez de nos insultarmos no mínimo reflectirmos sobre isso e não respondermos na mesma moeda. O ataque não faz com que a as situações mudem, o exemplo faz.

Hoje sinto pena por aquele senhor.

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